Quando fui convidada para ser articulista do jornal o povo, pensei sobre o que os leitores gostariam de ler aos domingos, e qual foi minha surpresa quando comecei a receber mensagens solicitando que eu escrevesse sobre relacionamentos, não sei se por minha titulação ou por carência do tema. Meus textos são na realidade, apenas provocações, onde cada um negocia como pode sua angustia e seu prazer.

Nossas relações com o outro, atravessam fases, estágios diversos. São etapas distintas que compõem a vivência em parceria. Há um tempo, primeiro de enamoramento, às vezes de paixão. Quando se deixam apaixonar, as pessoas tornam-se, reciprocamente, objeto-deus umas para as outras. Nessa condição, cada uma das partes é pura beleza, encanto, ternura e graça na relação. Tempo quase mágico, regido por uma ética da mais completa tolerância. Tempo, em que as falhas do outro passam despercebidas, são até graciosas. Na verdade, o ser apaixonado não vê, fica ofuscado pelo brilho que ele mesmo imprime à face do outro, a quem constituiu um pequeno deus. “A paixão corresponde à utopia humana de superar a insignificância do mundo, da vida e encontrar a felicidade”, diz Ana Valença.
Só que a paixão é um estado maravilhoso, mas provisório. Os apaixonados cometem seus equívocos: ora idealizam a parceria como lugar único de construção de felicidade, ora idealizam apenas o que é vivido como um amor extraordinário, e com isso perdem ocasiões significativas de pequenas vivências muito importantes. Na trajetória amorosa, queremos a felicidade do tamanho do nosso sonho, que é sempre maior que a realidade. Para além do tempo da paixão, há um outro, que é o tempo de amar o parceiro como ele é. Sem ilusões e sem esse fogo que queima e encandeia até os mais lúcidos mortais. A convivência mais prolongada nos empurra para o real da vida, da relação e do outro, nos levando a desmistificar esse deus que inventamos para satisfazer nossa ânsia de extraordinário.
Essa travessia que fazemos da mistificação ao real do outro, é quase sempre regida pela ética da intolerância. A intolerância é uma atitude que vai se transmutando e se disfarçando sob várias formas, até desembocar na rigidez e na violência. Assim o tique, o cacoete do outro, que antes era engraçado, até charmoso, começa parecer feio, torna-se irritante, às vezes insuportável. As excentricidades passam a ser patologizadas, ou seja, são consideradas doentias, perdem a graça, e passam a ser recriminadas. Esta é agora uma forma inconsciente de dizer que há um certo desencanto desse outro desmistificado, tornado tão real, tão revelado, tão pouco simbólico.
“O inferno são os outros”, dizia Sartre; “o inferno é ausência, a falta do outro” dizem as pessoas carentes de uma parceria e de uma relação afetivo-amorosa. Com quem ficamos? Talvez o fiel da balança não esteja no inferno da ausência, nem no paraíso da presença do outro em nossa vida. O inferno ou o paraíso, não serão produções do nosso modo de ser com os outros, não estarão, portanto, dentro de nós? Aguardamos sempre, que o outro seja maravilhoso para conosco, que ele nos compreenda e nos promova bem estar e felicidade.
Pouco nos damos conta, que somos nós que precisamos dele, e lhe atribuímos uma carga que ele não pode e não deve carregar: a de nos fazer feliz. A felicidade é uma construção pessoal e responsável, que cada um tem de assumir. O outro pode até estar inadequado à parceria que queremos, na construção de nossa felicidade, mas a responsabilidade de ser feliz é absolutamente pessoal. Fernando Pessoa é lúcido quanto a isso. “O paradoxo não é meu, sou eu”.
Zenilce Vieira Bruno
Psicóloga, Pedagoga e Sexóloga
zenilcebruno@uol.com.br