Muitos fatos simples guardam mistérios, por significarem além do que aparentemente revelam. De tragédia à comédia, depende do enfoque.

Viajar de avião, por exemplo, pode ser descrito como a ação de entrar numa aeronave, decolar, voar por certo momento, pousar e sair. Fim da viagem.
Diante da riqueza da vida, porém, essa descrição certamente esconde os acontecimentos mais variados.
Na verdade, viajar de avião é, no mínimo, um ato de alta diplomacia. Desde o exercício da paciência para inúmeras esperas até a arte do convívio no curto espaço fechado, com agrupamento de vidas e interesses variados. No trânsito, no trabalho, em vários outros ambientes, é possível irritar-se, xingar, reclamar e sair. No avião, o choro da criança que não se cala ou a irritação daquele que detesta o choro hão de ser harmonizados por, no mínimo, alguns minutos. Não dá para pular da janela.
Na fileira de cadeiras, no aperto, muitas vezes um completo estranho como companhia. São muitas as opções: silenciar, conversar... num discernimento delicadíssimo. Realmente, quando se quer silêncio, ou concentração, poucas coisas podem ser tão agressivas quanto conversar. Chatíssimo! Ou, dependendo da conversa, interessantíssimo! Seja como for, longe da possibilidade de mudar de ambiente, aprendemos a resolver o que for, na integridade de cada instante. Assim, mesmo as situações mais embaraçosas podem ser...
Outro dia, vivi uma experiência única. O avião havia parado, quando ocorreu um evento fora do comum. Estavam já todos de pé, retirando suas bagagens, sem que a porta tivesse aberto ainda. De repente, de uma forma inicialmente inexplicável, as pessoas começaram a se afastar do corredor, imprensando-se desesperadamente contra os assentos dos quais já tinham saído. À medida em que essa onda de comportamento foi se aproximando mais do meu assento, pude entender. Uma mulher caminhava do fundo, com a tonalidade da pele quase esverdeada, dizendo de forma meio inaudível: - Acho que vou vomitar.
Hoje, pensando bem, não entendo, porque ela não permaneceu em seu lugar e usou o saquinho. Talvez já tivesse levantado de sua poltrona, quando o mal-estar veio de forma mais grave. O certo é que pedia para afastarem, na tentativa de chegar ao banheiro. Quando eu a vi, pensei: E agora, se ela vomitar em cima de mim? Ao que parece, os outros passageiros pensaram o mesmo, e começaram a tentar voltar para seus assentos, com as malas já retiradas do compartimento acima. No tumulto, ficava mais difícil... quase uma aventura. Uma senhora que estava próximo a mim disse: Vem pra cá. E me enfiei na fileira dela. Na hora, alguém disse: Vou sair pra jantar agora, não posso me melar! E os passageiros que estavam a seu lado, ajudaram-na também a recuar do meio. Finalmente, a mulher chegou ao banheiro e todos respiraram aliviados, com um sorriso no rosto. Naquele curto instante, apesar da diversidade anônima, formou-se um cômico elo de solidariedade.
Pode-se dizer muito de ruim sobre andar de avião, até esse evento pode ser considerado desagradável, mas sempre que me recordo, fico rindo sozinha, lembrando da cara de desespero das pessoas, por algo simples, e da forma como tentavam ajudar os desconhecidos companheiros a se salvar, tal qual se tratasse da mais perigosa tragédia.
Enquanto as portas do avião não se abrem, trata-se de um sistema fechado em que o que for, há de ser resolvido ali, verdadeira arte do convívio e da tolerância, aprendizado de vida.