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Sab 11
Out
2008

Vida além da crise

“Tudo de que precisamos para recomeçar é a própria vida.” (Susan Sontag)

Diante da grandiosidade com que a crise financeira mundial vem sendo anunciada, mesmo quem não atua no setor financeiro não pode ignorá-la. Mas não se preocupem que não é de finanças que iremos conversar este mês.

É que alguns dados e comportamentos diante da crise me impressionaram.
Divulgou-se que o índice de pessoas com depressão nos Estados Unidos aumentou.

Além disso, em quase todo lugar que se comenta sobre o assunto, a crise financeira é encarada como algo catastrófico para a sociedade.
Sinceramente, tudo isso me causa indignação. Não a crise. Mas o terror que algumas pessoas procuram fazer, como se estivessem a se divertir com o pânico causado nos outros.

Paremos um pouco e vejamos a vida a nosso redor.
E isso não vale apenas para essa crise econômica, mas para qualquer outra que se tem a enfrentar.
Por mais que a inflação suba, que o poder aquisitivo diminua, é preciso ver além de índices econômicos, ou de eventos pontuais desagradáveis.

É tudo uma questão do olhar que se lança sobre a realidade.
Há e haverá na vida algo de belo que pode ser usufruído em qualquer lugar e sem custo econômico.

Uma conversa legal com um amigo, um beijo, um abraço, o próprio movimento de pessoas pelas ruas, ouvir e cantar música são elementos que trazem felicidade e que estão à disposição quase sempre.

Se não há mais dinheiro para comprar o mesmo que antes, compre a metade e troque com amigos quando já estiver querendo novidade. Se não há dinheiro nem mesmo para a metade, crie um novo estilo com algo já antigo. Pensando nisso, vai ver que foram os ricos chiques em processo de decadência que lançaram a moda mais que atual do vintage. Se perder o emprego, mantenha a fé em si. Garra é um produto que sempre tem valor no mercado. Se o FMI reduziu a previsão mundial de crescimento, combinemos: viveremos com menos ambição material, poupando e distribuindo excessos. Enfim, criatividade e solidariedade são grandes soluções diante das crises.

Além disso, não se pode ignorar que além dos índices de mercado, a vida concreta não sofre a força dos abalos na mesma proporção. O pavor é maior que a crise real, por maior que seja a recessão. Viver antecipadamente os males da crise é esse, sim, o pior dos males.

Se há pessoas que resolvem enlouquecer porque a bolsa subiu ou desceu, deixe-as pra lá, e assim como ocorre com crianças mimadas, talvez elas percebam que não podem causar tanto estrago e até se comportem melhor. Alguém, em verdade, está a ganhar muito dinheiro com todo esse pavor, e, como vendedores ambulantes de guarda-chuva em dia nublado, superfaturam o preço do bem que vendem com base em um temor.
É simplesmente assim: “In every life we have some trouble, but when you worry you make it double. Don't worry, be happy. Don't worry, be happy now.”

Life beyond the crises

“the only thing we need to restart is our own life”
(Susan Sortag)

 

Up against the grandeur of how the world financial crisis has been reported, it’s impossible to ignore this moment of crisis. It’s something that calls the attention even of those people who don’t work in the financial sector.

But don’t worry! We’re not going to talk about finances on this text.
Some data recently reported has called my attention. These data revealed that the number of depressed people has increased in the United States of America.

Further more, the financial crisis has been considered a catastrophic event by the whole society. Everywhere people have talked about the crisis the impression has been the same: it is a really catastrophic event.

In fact all these reports have gotten me crazy. What drives me crazy in fact is not the crisis in itself, but how some people try to frighten the society with such reports. Sometimes it sounds like these people are having fun with the panic that this news can cause.

Let’s stop and take a look around. We should do this not only during this moment of crisis but also this is a good idea for any crisis we need to overcome in our life.
Although the inflation raises, the purchase power lows, it’s necessary to see beyond the economic indices and the monetary unpleasant events.
This is a matter of how we perceive our reality.

There is and there always be something beautiful everywhere that can be enjoyed without money.

Nice conversations with a friend, a kiss, a hug, listen to and sing some songs or even the movement of people on the streets are elements that bring joy to us. These things are almost always available.

If you don’t have money to buy what you were used to buy, try at least to buy half of the things you were used to. Also exchange things with your friends when you want something new. If you don’t have money to buy half of the things, you should create a new style with something old that you may have. With that in mind possibly the trendy styles were created by the wealthy and chic decay people. If you lose your job keep on believing in yourself. Determination is something always valuable in the market. If the FMI (international Monetary Fund) reduced the prediction of the world economic development consequently:
We’ll live with less material ambition, save more and redistribute our excess expenses. Anyway, creativity and solidarity are great solutions for crisis.

It’s also important to realize that ‘real life’ do not suffer the same impact as the indices in the market. The panic is bigger than the real crisis despite the impact of the recession. Living the bad consequences of the crisis in advance is the worst option.

If there are some people that decided to go nuts because the stock market has raised or lowed don’t care about them. If you do this, possibly like the spoiled children they will realize that they can’t cause such damage and perhaps they’ll behave well. Certainly someone is taking advantage and earning a lot of money with all this panic and like umbrella vendors in a rainy day, they’re taking advantage selling the umbrellas much more expensive. These people take advantage of the others panic.
It is simple like this: “in every life we have some trouble, but when you worry you make it double. Don’t worry, be happy! Don’t worry be happy now.”

Sab 06
Set
2008

“Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que não se pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
(...)
E tudo isso que é tanto, é pouco para o que quero.
(...)
Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados
(...)
E amar as coisas como Deus.”
(Passagem das horas - Fernando Pessoa)


Degustar a vida
 
Sem dúvida, um dos lugares do mundo que nos faz pensar em novidade, tecnologia e outros termos correlatos é o Japão.
Recentemente, estive lá, mas o que mais me impressionou não foi isso, mas sim a calma com que as pessoas conduzem sua vida, e em como mantêm as tradições.
Minha dúvida era: como assim tanta calma em um lugar que produz tanto? Produtividade, geralmente, lembra pressa, agitação...
Mas eis que, depois de observar por alguns dias os costumes locais, pude entender: eles produzem muito, porque são organizados e dedicados. Esse comportamento individual se reflete em toda a sociedade. Apesar da grande quantidade de pessoas e carros, o trânsito não é caótico, a cidade não é barulhenta. Tudo flui com certa sofisticação e delicadeza.
Isso me fez repensar um pouco meu próprio modo de agir.  

Por natureza, sou impetuosa e agitada. Tenho vontade de abarcar o mundo! E realizo inúmeras atividades, às vezes seguidas, outras, ao mesmo tempo. Hoje, percebo que, na verdade, esse é um movimento global. Não sei se viram a última propaganda do Targifor, em que a pessoa narra fazer tantas atividades que só de ouvir a gente cansa. Diante desse quadro resta a questão: o que realmente se vive de tudo que se faz?

Para sentir que se viveu algo, é preciso ter percepção do que está acontecendo, ver os fatos se desenrolar. Por que será que vivemos com a impressão de que o tempo corre e de que, por mais que façamos muitas atividades, é como se, a cada dia, precisássemos fazer ainda mais?

Talvez a resposta seja esta: estamos vivendo sem viver. Automaticamente nos submetemos a um frenesi de atividades e informações, sem nos atermos a cada ato que praticamos. E simplesmente é como se não tivesse acontecido. O ano começa e quando vemos... tchan tchan... já é Natal. Se comparássemos os atos da vida a comidas, seria algo equiparável a colocar vários alimentos de uma só vez na boca. Fica muito mais difícil distinguir cada sabor, então é como se não fossem vários, mas um único.


Ver os japoneses me levou a pensar em dedicação a cada ato. Em afastar a pressa e me entregar com mais intensidade a detalhes. Fazer isso não necessariamente implica abandonar a possibilidade de viver bem, e, viver mais; pelo contrário. Quem sabe assim eu sinta mais cada momento, percebendo a seqüência de atos se desenrolar. Afinal, não é preciso viver tudo de uma só vez. E ainda bem que é dessa forma, pois teremos mais opções de escolher entre as diversas vidas que podemos levar.

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“Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que não se pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
(...)
E tudo isso que é tanto, é pouco para o que quero.
(...)
Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados
(...)
E amar as coisas como Deus.”

(Piece of  the poem As horas by Fernando Pessoa )

Enjoying life
 
Japan is undoubtedly one of the places that lead us to think about novelty, technology and other similar terms.
I’ve been there recently, but this idea of technology and novelty wasn’t what most impressed me; but how calmly people lead their lives and how they stick to traditions.
Productivity almost always reminds us hurry and agitation. So I wondered how their lives could be so calm in such a productive place.
After observing the local customs for some days I was able to understand how this is possible. They produce a lot because they’re organized and dedicated to what they do. This individual behavior is mirrored in all the Japanese society. In spite of the large number of people and cars isn’t noisy and the traffic isn’t chaotic too. Everything flows delicately and with some sophistication.

Regarding all these attitudes made me reconsider how I act. I

’m agitated and impetuous by nature. I want to do everything at one time! I do lots of activities, sometimes one immediately followed by the other. In fact now I realize that this movement is a global movement.
I don’t know if you have seen the last ‘Targifor’ (a Brazilian vitamin C tablet) advertisement; on this advertisement a person tells us his schedule. You get tired of just listening to it.
Considering all these things a question still remains: what do we really enjoy from what we do?

To feel that you have enjoyed something you have to have perception of what is going on and you also need to see things happening. I wonder why sometimes we have an impression that time runs really fast, and even though we do plenty of things it always sounds like we need to do something else.

Maybe the answer is: we’re living without enjoying our lives.
We easily subject ourselves to a large range of activities and information without experience each activity, each action we do. We do this in such an automatic way that we don’t realize this fact. For instance: a new year just begins and when you realize you are celebrating Christmas. If we compare what we do to the foods we eat, it’s something similar to eating everything together at one time. We can’t distinguish each food because everything is mixed. So the different tastes sound like one taste.
Regarding to the Japanese’s lifestyle led me think about each action in my life, how I should keep hurry back from me and enjoy the intensity of details.

Doing this, doesn’t mean the possibility of living more and well. This means exactly the opposite. Maybe if I live this way I’ll enjoy each moment more, I’ll notice the sequence of my actions and how they happen.
After all, it’s not necessary to enjoy everything at one time. I’m glad to know that because this means that we have more options to choose among all the lifestyles which one we can carry out.

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“Trago dentro do meu coração,
Como num cofre que não se pode fechar de cheio,
Todos os lugares onde estive,
Todos os portos a que cheguei,
(...)
E tudo isso que é tanto, é pouco para o que quero.
(...)
Sentir tudo de todas as maneiras,
Viver tudo de todos os lados
(...)
E amar as coisas como Deus.”

(Extrait du poème As horas de Fernando Pessoa)


Goûter la vie

Il n’y a pas de doute qu’un endroit au monde qui nous évoque les nouveautés, la technologie et d’autres choses du même genre est le Japon.
J’y ai été récemment. Ce qui m’a le plus étonnée, cependant, n’a pas été les nouveautés de la technologie  mais la manière  calme dont les gens mènent leur vie  et  l’attachement qu’ils ont aux traditions.
Mon grand doute était : comment est-il possible qu’un endroit qui produit aussi frénétiquement soit si tranquille ?
Normalement, productivité nous fait penser à la hâte et au mouvement…
Toutefois, après avoir observé pendant quelques jours les habitudes locales, j’ai pu le comprendre : les Japonais sont si productifs parce qu’ils sont organisés et motivés. Ce comportement individuel se reflète dans toute la société. Malgré  la grande quantité de gens et de voitures, la circulation sur les routes n’est pas chaotique, la ville n’est pas bruyante. Tout se coule avec une certaine sophistication et délicatesse.

Cela m’a fait repenser un peu  ma propre manière d’agir.

Je suis impétueuse et agitée par nature. J’ai envie de tout faire  à la fois ! Je fais de nombreuses activités, parfois les unes après les autres, d’autres en même temps. Aujourd’hui, je me rends compte qu’en réalité, cela est un mouvement mondial. Je ne sais pas si vous avez vu la dernière pub de “Targifor”, médicament à base de vitamine C, dans laquelle une personne dit faire tellement d’activités qu’on se fatigue juste en l’écoutant. En face de ce tableau, il reste la question : qu’est-ce qu’on vit vraiment de tout ce qu’on fait ?

Pour sentir qu’on vit quelque chose, il faut avoir la perception de ce qui se passe, voir le déroulement   des événements. Pourquoi est-ce que nous avons toujours l’impression que le temps passe vite et bien que nous fassions de nombreuses activités, c’est comme si, chaque jour, nous avions besoin d’en faire davantage.

Peut-être la réponse à ma question ci-dessus serait : on vit sans vivre pour de bon.  On se  soumet machinalement à des activités et des informations avec une telle frénésie, qu’on ne se rend pas compte de chaque action qu’on pratique. C’est simplement comme si rien ne s’était  passé.   L’année commence et quand on s’en aperçoit… en voilà... il est déjà Noël. Si l’on compare les faits de la vie à des aliments, ce serait comme si on en mettait plusieurs à la fois dans la bouche. Il devient plus difficile de distinguer chaque goût, c’est comme si d’un seul en était question donc, et non pas d’en plusieurs.  

            
Voir les Japonais, m’a fait penser à dévouement à chaque action ; m’a fait penser aussi à m’éloigner de la hâte et à me consacrer plus vivement aux détails. Faire cela n’implique forcément pas à abandonner la possibilité de bien vivre, et vivre davantage ; c’est bien au contraire. Peut-être puis-je ainsi sentir plus chaque moment et apercevoir le déroulement des événements. En fin de compte, il ne faut pas tout vivre en une seule  fois ; heureusement qu’il est de cette façon, car nous aurons plus d’options pour choisir parmi les différents modes de vie que nous pouvons mener.

Qui 24
Jul
2008

Quando era criança, ouvia bastante as pessoas afirmarem: "Não se encante com as amizades. Você pode se decepcionar."

Ainda criança, talvez num ato mais de rebeldia do que racional, deliberadamente, tomei uma decisão: escolhi me decepcionar, me arriscar.

O engraçado, porém, é que realmente me decepcionei algumas vezes, mas, se tivesse que fazer um balanço, o saldo seria positivo: aproveitei mais do que perdi com minhas amizades. Como há pouco tempo se comemorou o dia do amigo, achei que seria interessante conversarmos sobre o assunto.

É certo que as pessoas podem ser perversas; prova disso é o aumento da violência, da corrupção... Além disso, podem ser interesseiras e se aproximar apenas para conseguir algo além do simples compartilhamento de experiências e emoções. Ou mesmo se aproximar para, fingindo amizade, denegrir, ferir, maltratar. Como diz Hannah Arendt, "depois do Holocausto, o homem provou ser capaz de tudo". Essa capacidade de agredir e de agir com malícia gera desconfiança, e, muitas vezes, planta em nosso espírito uma presunção negativa em relação a algumas pessoas.

Mas pensemos o seguinte: quem somos nós como amigos?

Pergunto isso porque, se nos achamos capazes de ser um bom amigo, sincero, verdadeiro e desinteressado, certamente temos de concordar que haverá alguém com igual capacidade para nos acompanhar. Afinal não somos superiores ou exclusivos.

Por coincidência, há alguns dias estive na Alemanha para encontrar um amigo. Percorri mais de 200 quilômetros para vê-lo por apenas algumas horas. Ele fez o mesmo, já que morava em uma cidade ainda mais distante e na França. A cidade de encontro ficava a meio caminho do seu destino e do meu. Quando finalmente o encontrei em uma praça, ele estava acompanhado, conversando com outra pessoa, um residente local, que terminou ficando conosco um pouco mais. Conversamos todos como se convivêssemos há tempo. O residente, então, nos levou para conhecer a cidade, mas em determinada hora do dia teve de partir, porque precisava retornar ao trabalho. Quando saiu, eu disse a meu amigo: "Que legal é esse seu amigo!" Diante do que ele riu e respondeu: "Eu acabei de conhecê-lo. Na verdade, ele é amigo de um amigo." Comecei a rir, porque sempre fico encantada com a capacidade que algumas pessoas têm de ser gentis, ainda que não recebam nada em troca. Não o remuneramos, não tínhamos emprego ou promoção para lhe oferecer, melhora social, novos relacionamentos, nada. Ele era apenas uma pessoa qualquer. E nós também. Nada além disso.
Pois é. Para que o mundo melhore é preciso que busquemos um diálogo com o maior número de pessoas que acreditamos serem capazes de praticar atos interessantes. A alienação é uma forma muito cômoda de enfrentar a vida. E como mais uma vez afirma Hannah Arendt, uma das formas mais comuns e perigosas de alienação inspira-se "numa profunda desconfiança do mundo e num veemente desejo de evitar o envolvimento mundano, as atribulações e a dor que dele resultam, em prol da segurança e de um âmbito interno no qual o ser humano não se expõe a coisa alguma a não ser a si mesmo."

 

Assim, num mundo violento, e às vezes até mesquinho como o de hoje, a amizade ganha um significado especial: de realidade na qual nossa crença no ser humano pode ressurgir. E reunindo pessoas em que acreditamos, encontrando-as, nem que seja aqui ou acolá, dedicando-lhes um pouco de nosso tempo e atenção, podemos melhorar o mundo. Fortalecer laços de solidariedade com amigos fortalece não só a nós mesmos, mas a vida.

Seg 23
Jun
2008

  a arte de perder a própria vida falando mal da vida alheia

"É inteiramente monstruoso o costume que têm as pessoas hoje em dia de falar mal dos outros às suas costas, afirmando coisas que são absoluta e completamente verdadeiras." (Oscar Wilde)


Por mais que algumas queiram negar, a maioria das mulheres é educada ouvindo histórias românticas de heroínas e princesas bondosas e meigas. É claro que, ao longo da vida, a fantasia vai sendo afastada e percebemos que nem sempre é possível ser heroína ou boazinha. Até porque é equivocada a visão maniqueísta de mundo, que divide seres em bons e maus.
Seja como for, apesar de não haver essa divisão entre pessoas boas e más, podemos, ainda assim, escolher como agir, a cada momento de nossa vida. E nesse momento é possível ter certa consciência sobre o efeito do ato que iremos praticar, sobre ser um ato elogiável ou reprovável. Refletir um pouco sobre isso, e procurar agir de uma forma adequada chama-se ética. Moralismos a parte, um pouco de ética não faz mal a ninguém.


Não é necessário ler tratados de ética, de filosofia ou de seja lá o que for para refletir sobre o próprio comportamento. Basta fazer uma simples projeção: será que você se orgulha do seu comportamento? Será que teria coragem de narrá-lo para outra pessoa?


Todas essas perguntas são feitas para que possamos conversar sobre um hábito que algumas pessoas têm e, certamente, praticam sem ter noção do ridículo a que se submetem. Trata-se do costume de “fofocar” e, com isso manchar a imagem de pessoas, seja falando da roupa que parece feia, do cabelo com um corte inadequado, do peso acima da média... Ou ainda o de criticar com ironias. Vejam, não se trata apenas de falar da vida alheia, mas de falar para diminuir a outra pessoa.

Uma coisa é uma mulher passar com uma roupa linda e comentarmos isso com uma amiga. Ou de sabermos que de uma novidade interessante e repassarmos a informação, como, por exemplo, uma festa que alguém vai dar, uma viagem que vai fazer...
Outra coisa bem diferente, como se disse, é falar de alguém, ainda que seja verdade, com a finalidade de fazer chacota, diminuir... Ou ficar dando indiretas com o propósito de humilhar. Quem faz isso despeja um pouco de veneno no mundo. E, se fossemos contar uma historinha da vida, pessoas que agem assim seriam apontadas como... megeras.
      

 Será que seria possível visualizar o seguinte encontro entre Branca de Neve e a Bela Adormecida?
- Oi querida Branca, como está? Como andam as coisas no seu reinado?
- Tudo ótimo, e você Bela, como está? Quais são as novidades?
- Tudo ótimo também. Não tenho novidades. Na verdade, marquei esse encontro só para comentar com você como a Rapunzel anda engordando, você notou? E ela tá meio breguinha também, né? Que coisa mais pobre! Parece até que nem é uma personagem de história importante. 
   

Ao ouvir esses comentários, Branca de Neve ficou meio impressionada, porque no dia anterior Bela Adormecida havia cumprimentando Rapunzel em uma festa, com alegria.

Na verdade, Branca de Neve também havia achado Rapunzel meio brega mesmo, mas não estava a fim de falar do assunto, porque queria mesmo era encontrar um modo de criticar Bela. Branca andava irritadíssima com Bela, porque realmente estava bela e chamava muita atenção, por onde passava.

Todos os príncipes estavam desviando olhares. De repente, teve uma idéia: em vez de criticá-la diretamente, ia falar que cabelos loiros estavam fora de moda. Isso ia causar uma pontada de constrangimento em Bela, aquela loira lambisgóia. Não. Não. Só isso não seria suficiente. Era preciso fazer o comentário na frente de outras pessoas. Branca, então, caminhou um pouco com Bela para perto de uma roda de outras princesas e, continuando o diálogo sobre Rapunzel, disse à Bela em voz alta, para que todos ouvissem:
- Se pelo menos a Rapunzel mudasse a cor daquele cabelo! Porque você sabe, não é? Cabelos claros estão super fora de moda. Agora, ou você tem cabelo preto, ou já era. Ainda bem que já nasci com os meus assim. Você que é muito fashion devia pintar o seu, Belinha...
- Ai, Branca. Assim você me constrange. Quer dizer que não só a Rapunzel anda brega, mas você está insinuando que eu também?
- Imagina, amiga. É claro que não estou insinuando nada de você. Tô apenas te dando esse toque fashion, porque sei que você gosta de se manter up to date.

– Depois de dizer isso, Branca deu uma leve gargalhada.


Naquele dia, ao que tudo indica, o veneno contido na maçã comida por Branca e na agulha que furou Bela estava sendo espalhado por elas para outras pessoas. E assim, passaram a tarde no bosque, envenenadas e cercadas por serpentes. 
Será que se essa narrativa estivesse escrita na história, leríamos para as crianças ressaltando que se trata de um exemplo de comportamento?

Provavelmente, na história, atos como esses ficariam relegados a alguma bruxinha.
Não é agradável ficar adulto e descobrir que nossas ações nos fazem parecer mais a bruxa má do que a princesa. É triste reconhecer isso, mas às vezes é necessário, pois é esse o filme da vida real. A questão, então, é a seguinte: que papel você quer desempenhar?